Quarta-feira, 4 de Junho de 2008

Ciclopistas, para quê?

Manuel Tão


 Veículos ferroviários ligeiros, comuns na Alemanha ou em França, reabriram
as linhas rurais


É necessário reavaliar as propostas de conversão de linhas férreas rurais


O incentivo ao uso da bicicleta nas deslocações de trabalho e lazer tem sido
marca constante nas linhas de força das políticas de mobilidade sustentável.

Aliada a uma eficiente rede de transportes públicos, a bicicleta, individual
ou partilhada, confere uma simbiose ímpar, entre flexibilidade de utilização
e afectação de espaço na rede viária pré-existente, permitindo até
contornar eficazmente o eterno problema da incapacidade das zonas históricas e
hipercentros urbanos em acomodar viaturas automóveis.

Diferentemente das áreas urbanas, o contexto rural coloca a bicicleta num
quadro de rarefacção ou inexistência de transporte público, afigurando-se
limitado o seu potencial de inserção numa cadeia de modos de deslocação,
implicando externalidades mínimas.

Em Portugal, ganhou notoriedade recente a implementação de ciclopistas
rurais, sob a égide da 'promoção do turismo de natureza em zonas deprimidas
do interior do país'. Estas infra-estruturas são realizadas, na maior parte
dos casos, a expensas de um caminho-de-ferro existente, cujos serviços se
viram suspensos, na vaga de encerramentos que afectou o país, desde o início
dos anos 90 do séc. XX. A mais-valia ambiental destes sendeiros cicláveis,
indutores de viagens em viatura particular, como única forma de acesso, é
difícil de compaginar numa lógica de mobilidade sustentável.

Qual será o verdadeiro custo de oportunidade do desmantelamento de uma linha
férrea desactivada, por contraponto à sua reabilitação em moldes modernos, e
retoma da respectiva exploração comercial?

Extinto o caminho-de-ferro servindo centros urbanos como Chaves, Bragança,
Viseu ou vastas porções territoriais do Alentejo interior, qualquer viagem
destes locais para Lisboa ou Porto tornou-se cativa do automóvel particular
e do unimodalismo logístico, afectando toda a actividade económica.

A perspectiva real da via férrea existente entre Estremoz e Vila Viçosa vir
a desaparecer, dando lugar a uma ciclopista, atravessando uma região onde se
geram inúmeros movimentos de transporte rodoviário de mármore e pedra a
granel, tipifica um infeliz exemplo, lançando dúvidas quanto ao empenho
institucional no paradigma do intermodalismo, tantas vezes repetido em
discurso de circunstância.

Desde finais do séc. XX, a dependência energética externa do sector dos
transportes em Portugal tem vindo a agravar-se, num imprevisível quadro de
carestia dos combustíveis fósseis. Mas a evolução tecnológica entretanto
ocorrida resultou no aparecimento de veículos ferroviários ligeiros
desconhecidos por completo no país, todavia comuns na Alemanha ou em França,
onde, graças aos mesmos, a reabertura de linhas rurais se tornou um evento
vulgar.

Por que não reavaliar as diversas propostas de conversão em ciclopista das
vias férreas desactivadas? Encontrando-se já definido o quadro institucional
de liberalização do sector ferroviário, e da contratualização dos serviços
de transporte, o que se espera para imitar o exemplo europeu?

Doutor em Economia de Transportes

publicado por MC às 22:20
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